The China Mail - Exilados de Bukele diante de um retorno cada vez mais distante

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Exilados de Bukele diante de um retorno cada vez mais distante
Exilados de Bukele diante de um retorno cada vez mais distante / foto: © AFP

Exilados de Bukele diante de um retorno cada vez mais distante

Mesmo que já fosse esperado, não foi menos difícil para eles. A reeleição presidencial ilimitada aprovada recentemente em El Salvador afasta o retorno de dezenas de defensores dos direitos humanos, jornalistas, advogados e ambientalistas que se exilaram para evitar a prisão.

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Quatro deles conversaram com a AFP sobre o que chamam de "escalada repressiva" do presidente Nayib Bukele contra críticos de seu governo, a quem ele acusa de "distorcer" e "manipular".

Cerca de 80 se exilaram nos últimos quatro meses, segundo ativistas e defensores dos direitos humanos. A AFP consultou o governo, mas não obteve resposta até agora.

Popular por sua "guerra" contra as gangues, Bukele, presidente desde 2019, controla todos os poderes estatais e se autoproclama "ditador cool".

- A defensora dos direitos humanos -

Ela está com o braço esquerdo enfaixado. Pouco depois de sair com seus filhos de 9 e 11 anos pela fronteira com a Guatemala, foi operada de um tumor no México, onde estão refugiados.

"Coloquei a minha saúde, minha liberdade e meus filhos em primeiro lugar", diz Ingrid Escobar, diretora da ONG Socorro Jurídico, que dá assistência a familiares de presos em El Salvador.

A polícia rondava sua casa "duas vezes por semana", relata. Ela resistiu até que um amigo da Promotoria avisou que seu nome estava em uma lista de 11 pessoas a serem presas.

"Não tive escolha... por causa da intimidação e do medo de morrer na prisão sem tratamento médico. Peguei algumas roupas e saí como pude", conta esta mulher de 43 anos que dedicou sua vida ao ativismo humanitário.

Crítica ferrenha do regime de exceção imposto por Bukele em 2022 como parte da sua "guerra" contra gangues, ela denuncia que entre as 88.000 pessoas detidas há "milhares de inocentes" e 433 morreram em prisões.

A ONG Socorro Jurídico ainda atua em El Salvador, mas a equipe está sob "alto risco", lamenta.

"Consolidar a ditadura passa por prender defensores de direitos humanos para silenciá-los", afirma Escobar. "Não existe essa ditadura cool".

- O advogado -

Ruth López já estava de pijama quando a polícia chegou para prendê-la na noite de 18 de maio. A advogada, que liderava a unidade anticorrupção da ONG humanitária Cristosal e investigava casos em nível governamental, foi acusada de enriquecimento ilícito pela Promotoria alinhada a Bukele.

Sua prisão foi um divisor de águas. Um mês depois, seu colega René Valiente, chefe de investigações, exilou-se com outros 20 ativistas da Cristosal.

"Havia ataques nas redes sociais, estigmatização do nosso trabalho, vigilância dos órgãos de segurança", enumera o advogado de 39 anos no escritório da Cristosal na Guatemala.

Um advogado constitucionalista e outro ambientalista também foram presos em maio e junho, e entrou em vigor uma "lei de agentes estrangeiros", como as da Nicarágua, Venezuela e Rússia, para controlar as ONGs e cobrar-lhes impostos equivalentes a 30% de seus fundos.

Junto com López, Valiente assessorava à distância famílias dos 252 venezuelanos deportados por Washington que passaram quatro meses na megaprisão construída por Bukele para membros de gangues.

"Ele exerce repressão porque tem a validação dos Estados Unidos e enfraqueceu controles e contrapesos democráticos. Trabalharemos daqui por um país que não tenha que escolher entre segurança ou direitos", diz Valiente.

- O jornalista -

Ele ainda tem suas malas feitas porque, da Guatemala, busca asilo em outro país. Jorge Beltrán, de 55 anos, saiu de El Salvador em 14 de junho "totalmente destruído", sem sua esposa e filhos.

"Estou emocionalmente mal. Mas em El Salvador já não é seguro exercer um jornalismo livre e crítico", diz no pequeno quarto que aluga.

Jornalista há 23 anos, Beltrán é um dos 47 comunicadores que se exilaram nos últimos meses, segundo a associação profissional APES.

Desde o jornal El Diario de Hoy, relata que denunciava "funcionários corruptos de Bukele e violações de direitos humanos".

Um trabalho nada fácil, acrescenta, porque o governo "fechou o acesso a documentos públicos".

Decidiu sair quando pessoas próximas ao poder lhe avisaram que estava na mira da polícia.

"É um gosto muito amargo", garante. E a reeleição por tempo indeterminado "apaga a esperança de voltar em poucos anos".

Embora agora não tenha trabalho, pensa em criar um site para informar de fora o que acontece em El Salvador: "Estarei distante, mas não calado".

- A ambientalista -

Quando o Congresso controlado por Bukele suspendeu a proibição da mineração de metais em dezembro, muitos salvadorenhos saíram para protestar. Amalia López não podia faltar.

Líder ambiental há uma década, López, de 45 anos, deixou seu país em abril após ajudar a apresentar uma ação de inconstitucionalidade contra a mineração.

"Eu me sentia vigiada. Pensava em me proteger, esperar a pressão diminuir e voltar, mas não estou mais segura lá", comenta à AFP na Costa Rica.

Em maio, um defensor ambiental e um líder comunitário que protestavam com camponeses perto da residência de Bukele foram detidos.

"Com uma força militar e política tão avassaladora, não podemos fazer muito", afirma López, também defensora do direito das comunidades à água e à terra, ameaçados por "grupos econômicos poderosos".

Todo esse trabalho e seus afetos "ficaram lá". "Com a reeleição, um retorno em breve é impossível. Agora é uma realidade cada vez mais distante", resigna-se.

T.Luo--ThChM