The China Mail - Filhos de detidos, vítimas invisíveis da guerra contra gangues em El Salvador

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Filhos de detidos, vítimas invisíveis da guerra contra gangues em El Salvador
Filhos de detidos, vítimas invisíveis da guerra contra gangues em El Salvador / foto: © AFP

Filhos de detidos, vítimas invisíveis da guerra contra gangues em El Salvador

Os pintinhos piavam ansiosamente quando Jade chegava para alimentá-los. Desde que seu pai foi detido na guerra contra as gangues em El Salvador, ela precisa trabalhar na fazenda de sua avó e suportar que os colegas de escola digam que seu "papi" é um criminoso.

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A ofensiva de Nayib Bukele reduziu a violência a níveis mínimos ao encarcerar cerca de 91 mil pessoas, mas milhares de crianças foram relegadas à pobreza, estigmatizadas ou traumatizadas ao serem separadas de seus pais, muitas deles inocentes, segundo grupos de direitos humanos.

Após a prisão de José Urquía em agosto de 2023, Jade, de 16 anos, e seu irmão, de 13, ficaram sob custódia de sua avó, Sara Rivas, em El Rosario, 50 quilômetros ao leste de San Salvador.

Sobrevivem com uma modesta quantia de dinheiro enviada pela sua mãe, que havia emigrado para os Estados Unidos, e com a renda da pequena fazenda que Jade ajuda a manter quando sai da escola.

"Me dói quando me dizem que ele é algum tipo de membro de gangue... Sempre tem gente que me fala isso, dizendo que meu pai é um delinquente", relata à AFP. "Meu pai é inocente", afirma.

Segundo a reconhecida ONG Cristosal, cerca de 62 mil crianças menores de 15 anos podem ter sofrido alguma forma de abandono devido às políticas rígidas de Bukele, que incluem um estado de exceção que autoriza prisões sem mandato judicial desde 2022.

- "Crise silenciosa" -

A convicção de Jade (nome fictício) sobre a inocência de seu pai, de 37 anos, vai além do afeto.

Quando foi preso, Urquía não tinha antecedentes criminais, segundo uma certidão oficial expedida em setembro de 2024, que Rivas mostra à AFP em sua humilde casa em El Rosario.

Urquía foi detido quando chegou deportado dos Estados Unidos, acusado de pertencer a "associações criminosas". A família acredita que o motivo foram algumas tatuagens que ele tem nas mãos e no peito com o nome de seus filhos.

Cristosal e outras ONGs denunciam detenções arbitrarias e torturas sob o regime de exceção. O governo rejeita as acusações, mas reconhece que cerca de 8 mil pessoas foram libertadas por falta de provas.

O estigma é tão pesado para Jade que ela vai aproveitar a entrada no ensino médio para mudar de colégio.

"Prefiro ir para um novo, com pessoas que não conheço, começar do zero", disse, enquanto folheava fotos de seu pai.

Segundo Cristosal, algumas crianças separadas do pai, da mãe ou de ambos, abandonam a escola para trabalhar, ao ficarem sob custódia de familiares pobres.

A ONG denuncia uma falta de atenção estatal a esses menores, que personificam uma "crise silenciosa". O "impacto será observado nas próximas décadas", alerta.

Ao ser contatada pela AFP, a agência governamental responsável pelas crianças, Conapina, disse dar atenção "psicológica e emocional" aos filhos dos presos, e ajudar as famílias que cuidam deles a iniciarem negócios.

Segundo a Conapina, em alguns casos os pais que pertenciam a gangues eram "os principais responsáveis pela violação dos direitos de seus filhos".

- "Tiraram a minha infância" -

A vida dos gêmeos Carmem e Manuel (nomes fictícios) deu uma reviravolta em junho de 2022 quando a polícia prendeu seu pai, José Ángel Ruiz, de 36 anos, entregador de pão.

É "horrível porque não foi um abandono que ele tenha decidido, e sim que o tiraram de nossos braços", relata Carmen, de 17 anos, em sua precária casa de Zacatecoluca, 60 quilômetros ao leste de San Salvador.

Desde então, as crianças, que garantem que Ruiz também não tinha antecedentes criminais, ajudam no sustento de três irmãos: ela, limpando casas com sua mãe e dando banho em animais de estimação; ele, como pedreiro.

"Tive que amadurecer rápido, tiraram a minha infância", afirma Carmem, que, apesar de tudo, finalizou o ensino médio com honras e confia que seu pai será libertado.

Mas, para alguns, essa possibilidade não existe.

Cristosal assegura que entre 2022 e 2024 quase 180 menores enfrentaram a morte do pai ou da mãe enquanto estavam presos. A ONG Socorro Jurídico reporta 470 mortes na prisão, sob o regime de exceção.

R.Yeung--ThChM