The China Mail - O luto silencioso dos filhos de migrantes senegaleses desaparecidos no mar

USD -
AED 3.67295
AFN 64.999839
ALL 79.791817
AMD 364.960247
ANG 1.789783
AOA 916.999849
ARS 1497.265398
AUD 1.40408
AWG 1.80125
AZN 1.677673
BAM 1.685279
BBD 2.014312
BDT 122.212456
BGN 1.696366
BHD 0.376963
BIF 2986
BMD 1
BND 1.276583
BOB 11.555778
BRL 5.175303
BSD 1.000134
BTN 95.716237
BWP 13.507738
BYN 3.041998
BYR 19600
BZD 2.011383
CAD 1.380775
CDF 2272.999853
CHF 0.79733
CLF 0.023418
CLP 921.659949
CNY 6.729749
CNH 6.730325
COP 3052.94
CRC 447.54835
CUC 1
CUP 26.5
CVE 94.874968
CZK 20.69455
DJF 177.720387
DKK 6.40241
DOP 58.949745
DZD 132.583384
EGP 50.6481
ERN 15
ETB 160.875028
EUR 0.85639
FJD 2.1993
FKP 0.738395
GBP 0.73515
GEL 2.60502
GGP 0.738395
GHS 11.105001
GIP 0.738395
GMD 73.512179
GNF 8775.00007
GTQ 7.631759
GYD 209.237901
HKD 7.840635
HNL 26.815849
HRK 6.453024
HTG 130.81205
HUF 311.580025
IDR 17785
ILS 2.97705
IMP 0.738395
INR 95.46885
IQD 1310.188536
IRR 1374599.999868
ISK 121.790206
JEP 0.738395
JMD 158.032606
JOD 0.708993
JPY 158.152024
KES 129.479754
KGS 87.450131
KHR 4044.999694
KMF 422.000088
KPW 900.000294
KRW 1387.330177
KWD 0.30825
KYD 0.83342
KZT 461.963991
LAK 22525.999642
LBP 89549.99967
LKR 330.989556
LRD 181.149958
LSL 16.249004
LTL 2.95274
LVL 0.60489
LYD 6.365168
MAD 9.273223
MDL 17.247441
MGA 4310.043988
MKD 52.747545
MMK 2099.245957
MNT 3597.150887
MOP 8.077223
MRU 40.013098
MUR 46.979853
MVR 15.459782
MWK 1734.185232
MXN 16.954031
MYR 4.058705
MZN 63.904994
NAD 16.249004
NGN 1350.719975
NIO 36.801675
NOK 9.331031
NPR 153.14945
NZD 1.68617
OMR 0.384512
PAB 1.000134
PEN 3.367814
PGK 4.429853
PHP 61.720986
PKR 277.559111
PLN 3.702595
PYG 6016.268569
QAR 3.64621
RON 4.493399
RSD 100.457
RUB 83.978007
RWF 1473.649743
SAR 3.756199
SBD 8.025811
SCR 13.821803
SDG 601.491204
SEK 9.435175
SGD 1.271635
SHP 0.740866
SLE 24.649892
SLL 20969.499227
SOS 571.546744
SRD 37.742005
STD 20697.981008
STN 21.110771
SVC 8.751136
SYP 13001.999906
SZL 16.253711
THB 32.893029
TJS 9.225924
TMT 3.5
TND 2.923
TOP 2.40776
TRY 47.949399
TTD 6.783882
TWD 31.858994
TZS 2647.668003
UAH 44.716187
UGX 3730.144027
UYU 40.085479
UZS 11801.606177
VES 771.57685
VND 26180.5
VUV 118.215486
WST 2.715898
XAF 565.226795
XAG 0.014924
XAU 0.000221
XCD 2.70255
XCG 1.802445
XDR 0.707052
XOF 565.219489
XPF 102.764278
YER 237.103741
ZAR 16.102498
ZMK 9001.198905
ZMW 18.726547
ZWL 321.999592
O luto silencioso dos filhos de migrantes senegaleses desaparecidos no mar
O luto silencioso dos filhos de migrantes senegaleses desaparecidos no mar / foto: © AFP

O luto silencioso dos filhos de migrantes senegaleses desaparecidos no mar

"Fiquei calado desde então", murmura Fallou, de 12 anos, ao lembrar da morte da mãe no naufrágio da piroga -uma embarcação longa e estreita, geralmente de madeira, usada tradicionalmente para pesca e transporte- em que ela tentava chegar à Europa a partir do Senegal.

Tamanho do texto:

Sokhna, por sua vez, conta que vive atormentada por sonhos nos quais o pai reaparece depois de desaparecer no mar.

No Senegal, eles são chamados de "os que ficam". São órfãos que enfrentam uma espera insuportável e um luto impossível pelos "ausentes presentes": pais mortos no mar ou dos quais nunca mais se teve notícia após o desaparecimento da embarcação.

O número desses mortos e desaparecidos - e de seus filhos - chega a pelo menos "milhares" no Senegal nos últimos anos, afirma à AFP Saliou Diouf, fundador da associação Boza Fii, que luta contra o esquecimento dos migrantes desaparecidos.

Na cidade portuária de Mbour, ainda existe um tabu em torno da decisão tomada por esses pais de partir.

Também há medo das famílias de falar, já que as autoridades adotam uma política repressiva para impedir a saída das pirogas e prender traficantes de pessoas.

"Chorei muito (...) Depois pensei que era a vontade divina", sussurra Fallou, com fala entrecortada, ao evocar a morte da mãe.

No bairro de pescadores de Tefees, de ruas arenosas e casas precárias, Fallou e o irmão de nove anos se mostram felizes por se reencontrarem, apoiados um no outro no único cômodo habitável da casa da avó, Ndeye Ndiaye.

A vida deles mudou radicalmente quando a mãe, Awa, de cerca de 30 anos, morreu no Marrocos em 2024 após o naufrágio de uma piroga.

Desde a tragédia, "fiquei calado", diz Fallou. O menino não fala sobre o assunto nem com a avó nem com os amigos, apenas com o pai durante as visitas. "Ele me conta que minha mãe era uma boa pessoa", relata.

Como ocorre frequentemente nas famílias em que a mãe migrante desapareceu, a família acabou se desintegrando.

O pai voltou a morar com os próprios parentes e os meninos ficaram com a avó. Mas, pressionada pela pobreza, ela precisou separar os irmãos, confiando o mais novo ao padrinho.

Awa não havia contado à mãe sobre o plano de partir, mas lamentava frequentemente vê-la "cansada" e queria "ajudá-la mais".

- "Reze por mim" -

"Ela apenas me disse que precisava ir a Dakar", a capital, conta Ndeye. Mas certa noite Awa ligou: "Mamãe, peguei uma piroga para chegar à Europa e queria que rezasse por mim".

Duas semanas de angústia depois, uma ligação informou que ela havia morrido em um hospital no Marrocos.

"Não devolveram o corpo dela e continuo presa nisso", murmura Ndeye, incapaz de conter as lágrimas. "Ver crianças inocentes como elas obrigadas a viver sem mãe mexe profundamente com a gente".

Em 2024, pelo menos 10.457 migrantes morreram ou desapareceram na "fronteira euro-africana ocidental" tentando chegar à Espanha pela perigosa rota atlântica, segundo a organização Caminando Fronteras. É o maior número registrado desde o início da contagem, em 2007.

Impulsionados pelo desespero diante da falta de oportunidades no país - desemprego, desaparecimento dos recursos pesqueiros, entre outros fatores - e diante das restrições europeias de vistos e fronteiras, os migrantes acabam recorrendo a embarcações clandestinas, frequentemente velhas e superlotadas.

"Em geral, as famílias não recebem informações suficientes para elaborar o luto", destaca Saliou Diouf, da Boza Fii. "Aceitar o desaparecimento se torna muito difícil".

Às vezes, as crianças descobrem brutalmente a notícia na rua ou na casa de vizinhos. Algumas vivem divididas entre a espera insuportável, a recusa em aceitar a morte e a raiva.

É o caso de Sokhna, de 11 anos, de rosto angelical marcado por um olhar dolorido. A mãe, Fatou Ngom, vive com ela e os outros filhos em um quarto e pátio alugados, compartilhados com várias famílias em Mbour.

O pai, Assane, desapareceu depois que a piroga em que viajava pegou fogo no litoral em 2022.

Sem mais detalhes, Fatou apenas ouviu dizer que ele "estava entre as vítimas".

- Pobreza agravada -

A mãe conta que, desde então, Sokhna vive momentos de "ausência", sobretudo na escola, além de atraso escolar.

"Às vezes ela sonha e grita 'papai' várias vezes" no quarto onde toda a família dorme.

Embora a relação entre as duas pareça próxima, Sokhna diz sem rodeios que a mãe, ainda devastada pela dor e com muita dificuldade para falar sobre o desaparecimento do marido, "não a entende" quando ela tenta conversar sobre o pai.

"Quando sonho com ele e fico com medo porque realmente sinto que ele está falando comigo, no dia seguinte vou ver minha avó", confidencia. "Ela me conta como meu pai conquistou minha mãe e histórias sobre ele".

"Sempre penso no meu pai quando vejo o mar", sussurra. Foi a avó quem, ao perceber sua tristeza, aconselhou a menina a evitar passar pela praia e pelo ancoradouro.

Diferentemente da irmã, que enterra a dor, Boubacar, de 14 anos, mal consegue conter a emoção ao recordar aquele dia de 2022.

"Minha família veio buscar minha mãe; ela estava preparando café. Disseram: 'Assane morreu na embarcação'. Ela entrou em choque, começou a chorar e nós também".

"Meu pai queria construir uma casa para nós. Antes de conseguir, Deus levou sua alma", lamenta.

"Penso muito nele, principalmente quando minha mãe não tem dinheiro para as despesas do dia a dia, porque era ele quem nos ajudava a viver", diz aos prantos.

Aos 14 anos, o adolescente já trabalha regularmente depois da escola em uma oficina de serralheria para ajudar a mãe.

Esses órfãos tentam se reconstruir em famílias desfeitas e mergulhadas em uma precariedade ainda mais profunda - redução das refeições, abandono escolar, endividamento. Muitos crescem rápido demais, marcados pelas responsabilidades.

Perto de Boubacar, a irmã Coumba, de cinco anos, descalça e com roupas gastas, se distrai desenhando em uma lousa pendurada na parede do pátio. A menina praticamente cresceu sem conhecer o pai.

"Ela me faz chorar porque sempre pede notícias do pai", confessa Fatou. "Eu respondo que ele está viajando".

"Ela pode enlouquecer se explicarmos isso agora", acrescenta Boubacar.

- Romper o silêncio -

Amy Dramé também não contou a verdade aos filhos de dez, seis e três anos. O marido - que viu todos os colegas pescadores, esmagados pela pobreza, tentarem a travessia - ligou para ela de um barco em 10 de agosto de 2024.

"Ele pediu notícias das crianças e que eu rezasse por ele; foi a última vez que ouvi sua voz", conta, abalada. Um mês depois, as autoridades informaram que a piroga havia naufragado em Cabo Verde, sem sobreviventes.

Amy continua dizendo aos filhos que o pai está em uma temporada de pesca. "São crianças", murmura. "Eles pegam meu telefone para ver vídeos do pai; não vão esquecê-lo".

Tentar romper esse silêncio é o objetivo de um programa pioneiro no Senegal de acompanhamento psicossocial iniciado em 2024.

Cerca de 50 órfãos recebem apoio da ONG católica Delegação Diocesana de Migrações do Senegal (DDM), que começou esse trabalho após constatar o sofrimento das mulheres de desaparecidos, provocado pelo "luto ambíguo" ligado à incerteza sobre a morte.

"Percebemos que muitos filhos delas também sofriam de maneira diferente, mais silenciosa, com muita raiva", explica Jordi Balsells, diretor da DDM.

A ONG realiza três viagens por ano a outras regiões do Senegal e também faz acompanhamento domiciliar.

No centro de Mbour, em um prédio iluminado, as mães trabalham em uma oficina de costura para obter renda extra, enquanto as crianças - todas órfãs de pais migrantes - recebem terapia.

Várias brincam agitadas enquanto aguardam.

Babacar Ndiaye, de 12 anos, tomado pela emoção, não consegue falar sobre o desaparecimento do pai, comerciante de peixe, durante o naufrágio de uma piroga no litoral de Mbour em 2024.

"Você precisa saber que, se quiser falar, estamos aqui", diz suavemente Tesa Reimat Corbella, médica especializada em luto e responsável pelo acompanhamento psicossocial.

- Estigmatização -

Já o irmão de nove anos, Pape Balla, demonstra uma segurança surpreendente. Ele fala segurando duas pequenas figuras de crocodilo e lhama.

"Meu pai não queria partir, mas o homem que organizou a viagem o obrigou!", exclama, em uma tentativa de lidar com o abandono que não compreende. "Dói que ele tenha desaparecido; eu queria que tivesse ficado conosco".

"Tenho amigos no bairro que passaram pela mesma coisa, mas não falamos disso", acrescenta Pape, que também relembra momentos ao lado do pai. "Ele costumava comprar bolas para mim e sinto falta disso".

Assim como Babacar, Bambi Diop, de dez anos, mal consegue articular algumas palavras: "Não quero falar sobre meu pai", diz.

Com delicadeza, a psicoterapeuta Katy Faye a segura pelos ombros e tenta acalmar sua crise de choro. "Quando vou para a escola penso nele", acaba dizendo, explicando que era o pai quem frequentemente a levava às aulas.

A menina permanece parcialmente em negação, afirmando que o pai vive em outra cidade do Senegal e que está "bem". Palavras que surpreendem sua mãe, que garante que a filha "sabe" que ele morreu em um naufrágio em 2024.

Para Tesa, o principal desafio "é romper o silêncio" que cerca o desaparecimento. "É preciso começar a colocar em palavras o que aconteceu, poder falar com as crianças sobre quem era seu pai e trabalhar com o progenitor que ficou".

Ela comemora que a ONG tenha conseguido criar "um espaço seguro, onde podem compartilhar com outras crianças".

"O fato de aceitarem o que aconteceu e poderem falar sobre isso sem medo nem vergonha é o mais importante", ressalta. Mas reconhece que "ainda há muito trabalho pela frente, já que na escola ou na rua ainda existe estigmatização".

Mamadou Diop Thioune, integrante da sociedade civil e especialista há 20 anos em migração, lamenta que o apoio econômico e psicossocial a essas famílias não seja "levado em consideração nas políticas públicas".

Ele aponta a falta de informações das autoridades, assim como a ausência de ferramentas e profissionais capacitados, apesar de as "consequências sociais" dessas mortes e desaparecimentos serem "dramáticas" para o Senegal.

No centro da DDM, a luz suave do fim da tarde acalma o ambiente. As crianças, alinhadas sobre colchões no chão, assistem fascinadas à animação "Kirikou e a Feiticeira".

A sociedade senegalesa precisa estar mais "sensibilizada para a situação dos desaparecidos e de suas famílias", insiste Tesa, "é importante devolver dignidade aos desaparecidos que partiram em busca de uma vida melhor".

M.Zhou--ThChM